incorpore

 

INCORPORE_RECIFE (2006/2009)

[setembro 2006]: Um ato de imersão na geografia da cidade, ao percorrer o espaço urbano, explorando livremente situações e fragmentos cotidianos. Nessa viagem, embarcaremos com nossa mala de viagem, caixa transportável de ação, e como ambulantes, agregaremos impressões à nossa bagagem que, simultaneamente, serão compartilhadas em um diário online:www.corpoliquido.nafoto.net

[agosto 2009]:

ela diz:

    Gosto de pensar na recuperação de imagens que nunca existiram, como um arqueólogo visual que caminha por muito tempo para chegar a um lugar em que identifica um breve e fulminante encontro entre ser e paisagem, entre corpo e  imagem perdida, entre os sentimentos de insegurança, de ausência e de evocação que irrompem os recôncavos do tempo. Gosto de provocar os impulsos, os motivos, as secretas percepções que instam no homem a reflexão sobre as realidades pela ativação das camadas da memória, onde outros lugares se tornam aparentes em lugares que se quer encontrar.

À procura pelas mediações entre memória da experiência realizada em setembro de 2006 no SPA, e a memória material das imagens criadas durante esta experiência, encontramos imagens sensoriais de outro tempo que continuam a se fazer na dinâmica do caminhar pelas ruas desconhecidas de uma cidade. Uma Recife que nos afeta de modo íntimo, direto e puro, quando transitamos através de suas veias convergentes e divergentes, para então nos misturar.

Realizamos uma viagem e algo se desenhou no corpo. Desde então, adotamos a busca pelo lugar e pelo corpo no tempo da experiência de [hacer] caminhos, eixo de ações e gestos diversos que se dão conjuntamente. INCORPORE. Ao adentrar no cotidiano do lugar, uma cidade, nos propomos a criar temporalidades perceptivas como corpo inventor de realidades, ativados por artifícios técnicos geradores, reprodutores e multiplicadores de imagens e sons que nos impregnam.

Este corpo, que se dispõe a abstrair do lugar uma transformação pelo ritmo do movimento, gerador de qualidades na paisagem “urbana”, é acolhido pelo desejo de unidade, sempre assumindo o caráter transitório do processo da arte e do pensamento coletivo. Nesta exploração, incorporamos a idéia de duração, percepção e atenção à vida no papel do cotidiano, enquanto artistas construtores de imaginários simultâneos ao acontecer da ação corporal. Tornando material o tempo exato da experiência para trabalhá-lo paralelamente as formas espaciais e sociais que surgem da paisagem, buscamos pela noção do precário e pela fragilidade de todas as construções sociais e mentais, da errância, da viagem, na qual o trabalho se apresente como percurso, tessitura de espaços e temporalidades, e não como superfície ou volume.


Revirando cadernos e anotações lá do antes, quando tudo era escuridão de um começo, achei algumas coisas para reentrarmos no espaço da mala, lembras? Acabo de sentir aquele frescor que vem do Recife, de andar pelas pontes, de conhecer pessoas do Brasil, concentradas e comprometidas com a experimentação. Olhares atentos e corpos abertos as coisas daquele tempo que andávamos pela cidade, nos perdendo a cada instante para perceber os sons em milhares de camadas e com isso, absorver o impacto do urbano. Uma sensação nova de cidade, pois em tudo, encontrávamos algum uso. Morar, comer, vender, ambulantes, esperteza na cara, tapiocas, casas na rua, tudo era nu e cru e o real do centro da cidade, sempre nos excedia. Nós? O que tínhamos na mala? O que carregávamos pelas ruas? Palavras para distribuir, um sino, caixas de som que ficaram inaudíveis na recife-ruidosa que apenas imaginávamos, giz, imagens, mapas, jornais locais, camêras de fotografia, frutas, bobagens. Tácticas para criar um corpo extracotidiano e inventar paisagens. Aos poucos, fomos agregando outros objetos, sensações que nos encontravam no caminho, adentro da mala, nosso lugar-corpo, casa, e o sentido do nosso movimento enquanto corpos-viajantes. O ritual era repetir, repetir e repetir percursos com a mala azul todos os dias, pela cidade, com um corpo desacelerado que buscava ser corpoTEMPO ativado. Quando chegamos em Recife, caímos no Pátio e, logo, conhecemos o Prédio, espaço para ocupação de artistas, ABERTO a intervenção, durante a semana do SPA. Recebemos a oferta de um colchão, após termos identificado um possível lugar para habitar. Fomos acolhidas rapidamente, seres viajantes, por dois seres mágicos e flutuantes, e escoamos para a cidade universitária. CDU-Várzea.

Chegamos em Recife com o espírito b.n. – arte enquanto atitude – e uma mala. E as extensões que criamos, prolongamentos corpóreos para dar amplitude a ação, foram a base da nossa abertura artística.


Agora, estar aqui, revendo a experiência e, a partir dai, estar-lá-de-novo, naquela descoberta, através das palavras dos amigos distantes que deixavam recados virtuais, da sensação de não-ter-hora para nos perceber tranquilamente no trabalho de criação e absorver as sensações intrínsecas do mundo, conectadas à natureza e ao movimento das coisas é o que nos impulsiona a aprofundar a relação que existe quando fazemos arte sem paredes, pelas ruas de uma cidade. Pura força do empírico na vida, do respeito ao acaso e da escuta das pulsões que nos atravessam. O tempo nas mãos e a improvisação em cada movimento do corpo em sincronia com o ritmo da cidade, como jazz. Existe uma conexão às pessoas de uma cidade que é rara e espontânea. Simplesmente acontece. O momento ápice da nossa experiência foi uma tarde na lateral de uma das pontes-de-liga Recife, onde ficamos uma tarde habitando como espaço de relação, de criação. Deixamos as ações irem surgindo a partir daquilo que nos circunscrevia. Abandonamos máquinas fotográficas para viver aquilo silenciosamente. Lembro do movimento dos teus braços. Eu abria o livro para quem quisesse ler e seguia caminhando com o passante. No livro dizia: O MUNDO É GRANDE. As pessoas interagiam e assim íamos nos sentindo presentes, tomadas pelo estar tornando-se tempo.

Em 2008 estive novamente em Recife, e a sensação da ponte foi absurdamente linda. Reencontrar o mesmo homem que “dividimos” a lateral da ponte em 2006, um senhor barrigudinho que tem uma mesa e um guarda chuva onde vende coisas-tipo-pilhas-etc, foi uma sensação da vida inesquecível. O que faz parte de nós, está em nós, para nos tornarmos mais humanos? Uma ponte cravada na memória como algo que não me imagino mais sendo sem. Entendes o que estou dizendo? Quantas vezes mais vai se lembrar de uma tarde tão profundamente parte do seu ser, tanto que não dá nem para imaginar sua vida sem ela?

Desde 2005, participamos de encontros de arte independente que tem como foco o trabalho de intervenção urbana ou arte como experimentação. O SPA foi uma experiência contagiante que ainda reverbera no nosso caminho artístico. Lembro do retorno a POA como algo extremamente conflitante. Não tínhamos certezas quanto ao vivido, nem quanto ao que realizamos como trabalho. Onde estava o traballho? A cidade que nos esperava, estava no mesmo lugar com a artebemcomportada e megacareta dos filhos de Sorbonne. Contagiadas pelas descobertas de Recife, aterrissamos com a sensação de que arte se faz no gerúndio, aceitando a necessidade de testar arte com mais esponaneidade. A partir daí, inventamos a mostra de vídeos ambulante, Louva-a-deus, um filho do SPA! E desde então, outras propostas sugiram dessa experiência-gênese, energia que sempre nos remetemos. O tempo de convivência em Recife está impregando no nosso corpo como sensação de movimento inquientante que nos desafia a testar as possibilidades de fazer arte no cotidiano. Foi nesse atemporal da experiência que começamos a apostar no nosso sonho coletivo do mergulho, de realizar o processo criativo de maneira aberta e colaborativa, com vigor e desejo relacional, para descobrir e desvendar nossa percepção como ser observador e ativador de mundos. Perceber e agir. Agir e perceber.

*

 

INCORPORE_PORTO ALEGRE (2007/2009)

INCORPORE A PAISAGEM é uma proposta de experiência perceptiva de um corpo inventor de realidades no cotidiano de um lugar, ativado por artifícios técnicos geradores, reprodutores e multiplicadores de imagens e sons que nos impregnam. Na constituição de uma abordagem diferente sobre a cidade, sobre o real e sua imagem, é sempre a idéia de paisagem e a de sua construção que dão uma forma, uma medida a percepção como qualidade incorporATIVA de um estado absorvente, que toma corpo na duração da experiência como unidade imagética da experiência corporal acionada pela materialidade da imagem gerada entre tempo, corpo e lugar.

Esta proposta de vídeo experimental se origina na concentração de esforços para o encontro que se propõe a criar um imaginário comum pela coexistência de ações e gestos no tempo da experiência do caminho. Nesta exploração, incorporamos a idéia de duração, de percepção e de atenção à vida ao papel do cotidiano enquanto artistas construtores de imaginários simultâneos no acontecer da experiência, material, a ser trabalhada paralelamente as formas espaciais e sociais que surgem da cidade. Este corpo duplo, ôrganico e técnico, perceptivo e gerador de memória, acolhido pelo desejo de unidade, assumindo o caráter transi-tório do processo da arte e do pensamento coletivo, se dispõe a abstrair do lugar uma transformação pelo ritmo do movimento na paisagem “urbana”.

Misturar temporalidades, épocas, qualidades de imagem e estilos a partir de elementos que estão afastados, a partir de referenciais culturais que formam uma atmosfera de imagens circundantes e que nos alimentam continuamente, e buscar pela noção do precário, com atenção a fragilidade de todas as construções sociais e mentais, da errância, da viagem, na qual a obra se apresenta como percurso são as tácticas desta proposta de construção de um imaginário comum.

camila mello e manuela eichner – 2007
[tempo de experiência: 01 a 20.09]
projeção na Galeria do Instituto Goethe
18 e 19.09 – das 10h às 20h




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