http://www.flickr.com/photos/manuelaeichner/
série de colagem descompromissada
outubro 09



Estou esperando um telefonema que nunca mais vou receber.
Uma sinfonia, por favor?
- Sim, tocarei o tempo em que estiver aqui.
Domingo fui ver a exposicão do mestre da colagem e da simplicidade. O sol do verão invadiu a tarde de domingo e retirou dos armários as estampas e coloridos que cabiam bem ao caminho da ida ao mestre. Quando cheguei próximo as ilustrações do livro do jazz meu coração estremeceu. Ao lado tinha umas linóleos pretas com desenhos de 2 corpos se encontrando num abraço que me fez lembrar a figura que percorri durante alguns anos obsessivamente. ah, ainda farei um livro com todas aquelas serigrafias aquareladas… E então, que prazer que só na arte encontro ver os jazzes de matisse. Cada cor, cada delicadeza de composição, cada sabedoria. Fiquei tempo e mais tempo vendo e revendo cada cor e sua forma. E tudo isso porque até ontem só pensava em colagem e buscava imagens matisse e suas miragens no virtual tomavam conta da minha imaginação. Nesse momento perguntei ao edu: – tem algum livro do matisse? – não… mas tem uma expo dele na pinacoteca que acaba amanhã. Yupiiiiiiiiii, um domingo atrás de matisse. Entrei numa sala escura que apresentava vídeos feito pelo pompidou das obras de matisse… e da sua sabedoria, tranquilidade, seriedade. Que figura linda, uma capa preta e uma pomba branca sob o ombro. Parecia uma figura de garcia marques. Uma hora ele disse que a única coisa que define um artista é o trabalho. O talento… pode se enferrujar. Só a busca no trabalho alcança. Sai de lá e olhava a luz do dia…. um céu aberto e um vento a embalar as palmeiras frente a estação. Passeava pela estação que é um mundo particular.. muitas prostitutas, homens perguntando quanto é o programa, homens bêbados. Voltei para o jazz de matisse e segui o caminho de casa. E daí adormeci. Agora acordo em 2046 e tenho vontade de te escrever uma carta. Ligo a televisão e o personagem diz a seguinte frase:
- estou esperando um telefonema que nunca mais vou receber.
[vídeo catado no youtube de uma exposição do matisse no pompidou]
02:26 terminei de ver man on wire. putaquefoda ver essa filme, essa história. uma imagem que me faz morrer e nascer. uma coragem. um homem. um corpo suspenso no espaço entre o ar. ver essas duas linhas que se cruzam, uma linha reta e um homem que a cruza, ganhei 1 ano. não entendo todo o ingles mas isso não importa. o que vejo é esse homem que vai sem medo e em cada passo uma conquista mais serena, mais tranquila, mais concentrada, a certeza da busca. a plenitute de estar na suspensão. ganhei 1 ano com essa imagem. compartilho com vcs man on wire:
http://www.megavideo.com/?v=EBSOKSS9
2009 seguia seu curso, praticamente afásico em relação aos 50 anos da primeira exposição do Neoconcretismo − salvo uma pequena e quase inexpressiva mostra no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro − quando as obras de Hélio Oiticica se esfumaçam… provocando um choque nesse torpor, embora as palavras ainda não encontrem sintaxe passível de expressar esse gigantesco vazio.
Já há algum tempo sucedem-se comentários descabidos, ressentidos, de críticos e por vezes de artistas, até mesmo cariocas, sobre a possível usurpação da projeção de Hélio Oiticica e de Lygia Clark sobre a arte brasileira contemporânea. Situação reveladora de nossa incapacidade de incorporar criticamente a memória ao presente e, assim, absorvê-la, enriquecendo a reflexão sobre a produção atual e também histórica no Brasil. Se é bem verdade que às vezes o reconhecimento internacional da força da obra desses dois artistas tenda a tudo agregar ao neoconcretismo, não é menos verdade que essa aceitação fortalece o solo histórico em que se constituíram ao lado de muitos outros artistas e tendências, deslocando a percepção da produção de arte brasileira como sucedâneos, fissurando, de certo modo, o hipotético universalismo da narrativa historiográfica da arte ocidental.
Mas Parangolés, Grande Núcleo, Bólides, Maquetes e muitas outras obras hoje são cinzas, restos queimados. Catástrofe que se abate sobre um projeto que ao longo de 27 anos, por relações familiares e de amizades, assegurou a presença da obra de Hélio Oiticica no mundo, disponibilizou documentos e outros materiais para pesquisas, revelando-se, contudo, incapaz, em termos privados, de assegurar sua preservação. Catástrofe que é de todos nós e da cultura em geral, e cuja responsabilidade maior é do poder público brasileiro, inoperante na constituição de coleções públicas. Boa parte dessas obras deveria estar em museus brasileiros, com salas especiais. Coleções não apenas de suas obras, mas conjuntos que permitissem romper a permanente invisibilidade de que padecemos de nossa própria história e que se soma à invisibilidade dos trabalhos de arte internacional. Cabe le mbrar que a proposta da Prefeitura do Rio de Janeiro de assegurar lugar para a obra de Oiticica com a criação do Centro de Arte Hélio Oiticia revelou-se de profunda incompetência em seus jogos de poder.
Do incêndio do MAM-RJ, em 1978, a herança revebera até hoje como perda de um lugar central da arte contemporânea na cidade. Lugar que foi de encontros e de presença de uma coleção pública, e, desde então, vem sendo de sucessivas tentativas de recuperação. Se esse incêndio nos privou de obras, entre muitos outros, de Mondrian, Picasso, Magritte e dezenas de trabalhos de Torres Garcia, não deixemos silenciar sua proposta de inversão do mapa – “Nosso norte é nosso Sul”. Já é hora também de transformarmos o célebre grito de alerta de Hélio Oiticica, “Da adversidade vivemos”, em estratégia, parafraseando-o, “de caracterização de um povo”.
A ação de sua arte no mundo será, helàs, para sempre inseparável da dor.
Glória Ferreira



[Plano para colorir São Paulo em dias de chuva]

# texto A VOZ DO MERGULHO para a 7 revista TATUÍ http://tatuicritica.blogspot.com/
ADQUIRA: http://revistatatui.com/adquira/

o SPA das artes em Recife 2009 contou com o lançamento da nossa publicação DOCUMENTO: A ZONA. Tudo isso graças a força com a qual estamos construindo nossa publicação independente e o imenso apoio e generosidade dos amigos que estão nos apoiando do lado de lá.
AZONA: www.corpoliquido.wordpress.com
Na abertura do SPA também foi lançada a REVISPA em que Camila Mello e eu escrevemos um texto sobre nossa experiência no SPA de 2006 onde abrimos a experiência INCORPORE A CIDADE. Abaixo segue imagens da REVISPA:


INCORPORE RECIFE
[setembro 2006]: Um ato de imersão na geografia da cidade, ao percorrer o espaço urbano, explorando livremente situações e fragmentos cotidianos. Nessa viagem, embarcaremos com nossa mala de viagem, caixa transportável de ação, e como ambulantes, agregaremos impressões à nossa bagagem que, simultaneamente, serão compartilhadas em um diário online: www.corpoliquido.nafoto.net
[agosto 2009]:
ela diz:
- Gosto de pensar na recuperação de imagens que nunca existiram, como um arqueólogo visual que caminha por muito tempo para chegar a um lugar em que identifica um breve e fulminante encontro entre ser e paisagem, entre corpo e imagem perdida, entre os sentimentos de insegurança, de ausência e de evocação que irrompem os recôncavos do tempo. Gosto de provocar os impulsos, os motivos, as secretas percepções que instam no homem a reflexão sobre as realidades pela ativação das camadas da memória, onde outros lugares se tornam aparentes em lugares que se quer encontrar.
À procura pelas mediações entre memória da experiência realizada em setembro de 2006 no SPA, e a memória material das imagens criadas durante esta experiência, encontramos imagens sensoriais de outro tempo que continuam a se fazer na dinâmica do caminhar pelas ruas desconhecidas de uma cidade. Uma Recife que nos afeta de modo íntimo, direto e puro, quando transitamos através de suas veias convergentes e divergentes, para então nos misturar.
Realizamos uma viagem e algo se desenhou no corpo. Desde então, adotamos a busca pelo lugar e pelo corpo no tempo da experiência de [hacer] caminhos, eixo de ações e gestos diversos que se dão conjuntamente. INCORPORE. Ao adentrar no cotidiano do lugar, uma cidade, nos propomos a criar temporalidades perceptivas como corpo inventor de realidades, ativados por artifícios técnicos geradores, reprodutores e multiplicadores de imagens e sons que nos impregnam.
Este corpo, que se dispõe a abstrair do lugar uma transformação pelo ritmo do movimento, gerador de qualidades na paisagem “urbana”, é acolhido pelo desejo de unidade, sempre assumindo o caráter transitório do processo da arte e do pensamento coletivo. Nesta exploração, incorporamos a idéia de duração, percepção e atenção à vida no papel do cotidiano, enquanto artistas construtores de imaginários simultâneos ao acontecer da ação corporal. Tornando material o tempo exato da experiência para trabalhá-lo paralelamente as formas espaciais e sociais que surgem da paisagem, buscamos pela noção do precário e pela fragilidade de todas as construções sociais e mentais, da errância, da viagem, na qual o trabalho se apresente como percurso, tessitura de espaços e temporalidades, e não como superfície ou volume.
Revirando cadernos e anotações lá do antes, quando tudo era escuridão de um começo, achei algumas coisas para reentrarmos no espaço da mala, lembras? Acabo de sentir aquele frescor que vem do Recife, de andar pelas pontes, de conhecer pessoas do Brasil, concentradas e comprometidas com a experimentação. Olhares atentos e corpos abertos as coisas daquele tempo que andávamos pela cidade, nos perdendo a cada instante para perceber os sons em milhares de camadas e com isso, absorver o impacto do urbano. Uma sensação nova de cidade, pois em tudo, encontrávamos algum uso. Morar, comer, vender, ambulantes, esperteza na cara, tapiocas, casas na rua, tudo era nu e cru e o real do centro da cidade, sempre nos excedia. Nós? O que tínhamos na mala? O que carregávamos pelas ruas? Palavras para distribuir, um sino, caixas de som que ficaram inaudíveis na recife-ruidosa que apenas imaginávamos, giz, imagens, mapas, jornais locais, camêras de fotografia, frutas, bobagens. Tácticas para criar um corpo extracotidiano e inventar paisagens. Aos poucos, fomos agregando outros objetos, sensações que nos encontravam no caminho, adentro da mala, nosso lugar-corpo, casa, e o sentido do nosso movimento enquanto corpos-viajantes. O ritual era repetir, repetir e repetir percursos com a mala azul todos os dias, pela cidade, com um corpo desacelerado que buscava ser corpoTEMPO ativado. Quando chegamos em Recife, caímos no Pátio e, logo, conhecemos o Prédio, espaço para ocupação de artistas, ABERTO a intervenção, durante a semana do SPA. Recebemos a oferta de um colchão, após termos identificado um possível lugar para habitar. Fomos acolhidas rapidamente, seres viajantes, por dois seres mágicos e flutuantes, e escoamos para a cidade universitária. CDU-Várzea.
Chegamos em Recife com o espírito b.n. - arte enquanto atitude – e uma mala. E as extensões que criamos, prolongamentos corpóreos para dar amplitude a ação, foram a base da nossa abertura artística.
Agora, estar aqui, revendo a experiência e, a partir dai, estar-lá-de-novo, naquela descoberta, através das palavras dos amigos distantes que deixavam recados virtuais, da sensação de não-ter-hora para nos perceber tranquilamente no trabalho de criação e absorver as sensações intrínsecas do mundo, conectadas à natureza e ao movimento das coisas é o que nos impulsiona a aprofundar a relação que existe quando fazemos arte sem paredes, pelas ruas de uma cidade. Pura força do empírico na vida, do respeito ao acaso e da escuta das pulsões que nos atravessam. O tempo nas mãos e a improvisação em cada movimento do corpo em sincronia com o ritmo da cidade, como jazz. Existe uma conexão às pessoas de uma cidade que é rara e espontânea. Simplesmente acontece. O momento ápice da nossa experiência foi uma tarde na lateral de uma das pontes-de-liga Recife, onde ficamos uma tarde habitando como espaço de relação, de criação. Deixamos as ações irem surgindo a partir daquilo que nos circunscrevia. Abandonamos máquinas fotográficas para viver aquilo silenciosamente. Lembro do movimento dos teus braços. Eu abria o livro para quem quisesse ler e seguia caminhando com o passante. No livro dizia: O MUNDO É GRANDE. As pessoas interagiam e assim íamos nos sentindo presentes, tomadas pelo estar tornando-se tempo.
Em 2008 estive novamente em Recife, e a sensação da ponte foi absurdamente linda. Reencontrar o mesmo homem que “dividimos” a lateral da ponte em 2006, um senhor barrigudinho que tem uma mesa e um guarda chuva onde vende coisas-tipo-pilhas-etc, foi uma sensação da vida inesquecível. O que faz parte de nós, está em nós, para nos tornarmos mais humanos? Uma ponte cravada na memória como algo que não me imagino mais sendo sem. Entendes o que estou dizendo? Quantas vezes mais vai se lembrar de uma tarde tão profundamente parte do seu ser, tanto que não dá nem para imaginar sua vida sem ela?
Desde 2005, participamos de encontros de arte independente que tem como foco o trabalho de intervenção urbana ou arte como experimentação. O SPA foi uma experiência contagiante que ainda reverbera no nosso caminho artístico. Lembro do retorno a POA como algo extremamente conflitante. Não tínhamos certezas quanto ao vivido, nem quanto ao que realizamos como trabalho. Onde estava o traballho? A cidade que nos esperava, estava no mesmo lugar com a artebemcomportada e megacareta dos filhos de Sorbonne. Contagiadas pelas descobertas de Recife, aterrissamos com a sensação de que arte se faz no gerúndio, aceitando a necessidade de testar arte com mais esponaneidade. A partir daí, inventamos a mostra de vídeos ambulante, Louva-a-deus, um filho do SPA! E desde então, outras propostas sugiram dessa experiência-gênese, energia que sempre nos remetemos. O tempo de convivência em Recife está impregando no nosso corpo como sensação de movimento inquientante que nos desafia a testar as possibilidades de fazer arte no cotidiano. Foi nesse atemporal da experiência que começamos a apostar no nosso sonho coletivo do mergulho, de realizar o processo criativo de maneira aberta e colaborativa, com vigor e desejo relacional, para descobrir e desvendar nossa percepção como ser observador e ativador de mundos. Perceber e agir. Agir e perceber.


* ilustrações para livro infanto-juvenil “A face Oculta” – Ed. Saraiva



